Literatura Portuguesa

Todas as cartas de amor… – Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

(Fernando Pessoa)

Literatura Portuguesa

O cego e a guitarra – Fernando Pessoa

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.

(Fernando Pessoa)

Teoria Literária

Sílaba poética (ou métrica)

Métrica é a medida de um verso, definida pelo número de sílabas poéticas (ou métricas) que ele possui.

A sílaba poética nem sempre corresponde a uma sílaba gramatical. Na divisão (ou contagem) das sílabas poéticas de um verso, considera-se as emissões de voz do verso como um todo. Além disso, conta-se apenas até a última sílaba tônica do verso. Essa contagem é chamada de escansão.

Observe a escansão destes versos do poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.

Mi/nha/ ter/ra/ tem/ pal/mei/ras,/             ( 8 sílabas gramaticais )

Mi/nha/ te/rra/ tem/ pal/mei/ras,              ( 7 sílabas poéticas )

On/de/ can/ta/ o/ Sa/bi/á;/                         ( 8 sílabas gramaticais )

On/de/ can/ta o/ Sa/bi/á;/                          ( 7 sílabas poéticas )

As/ a/ves/ que/ a/qui/ gor/jei/am,/            ( 9 sílabas gramaticais )

A/s a/ves/ que a/qui/ gor/jei/am,              ( 7 sílabas poéticas )

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ lá./                     ( 7 sílabas gramaticais )

Não/ gor/jei/am/ co/mo/ lá./                     ( 7 sílabas poéticas )

No último verso, há correspondência entre sílaba gramatical e sílaba poética.

Os versos do poema de Gonçalves Dias são heptassílabos ou versos de redondilha maior (sete sílabas poéticas).

Observe a escansão destes versos do “Soneto do Maior Amor”, de Vinícius de Moraes.

Mai/o/r a/mor/ nem/ mai/s es/tra/nho e/xis/te
Que o/ meu/, que/ não/ so/sse/ga a/coi/sa a/ma/da
E/ quan/do a/sen/te a/le/gre/, fi/ca/ tris/te
E/ se a/ vê/ des/con/ten/te/, dá/ ri/sa/da.

Os versos do soneto de Vinícius de Moraes são decassílabos (dez sílabas poéticas).

Literatura Brasileira

Silêncio Amoroso 2 – Affonso Romano de Sant’Anna

Silêncio Amoroso 2

Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.

O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
– de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

(Affonso Romano de Sant’Anna)